Sendo melhor: os espartanos e os estoicos oferecem muito mais do que autoajuda

Imagem: Pixabay

por Kai Whiting

(traduzido por Afonso Jr Ferreira de Lima e Kai Whiting)

 

Pelo menos em algum nível, ser coautor do livro Being Better: Stoicism for a World Worth Living in (em português se traduz Sendo melhor: Estoicismo para um mundo em que valha a pena viver”) foi uma jornada nos corações e mentes dos grandes homens e mulheres, que apontaram o caminho para a eudaimonia – um estado ao qual Zenão referiu-se como a “vida boa” ou “a vida digna de ser vivida”. Eudaimonia é algo que poderíamos obter apenas através do nosso trabalho. Um dos Estoicos mais poderosos que conheci, e cuja história Leonidas e eu contamos (no capítulo 7) é a da rainha espartana Agiatis. Ela se apoiou nas ideias Estoicas para ajudar seu marido, o rei Kleomenes III, a derrubar um regime oligárquico que havia esmagado o espírito guerreiro de Esparta. Seu exemplo fala comigo por três razões:

  1. Confirma que o Estoicismo não é apenas sobre não é apenas sobre o próprio indivíduo: enquanto o Estoicismo trata profundamente de como alguém deve esculpir seu próprio caráter, as reformas agrárias e socioeconômicas influenciadas pelo Estoicismo em Esparta provam que a filosofia pode ser usada para o bem comum. Também mostra que podemos aplicar com sucesso a filosofia no nível da comunidade. Ao mesmo tempo, leva-me a pensar que o Estoicismo tem algo a dizer sobre questões ambientais, como a perda de biodiversidade, que normalmente não consideramos estar sob nosso controle. Além disso, estou convencido de que, se os espartanos puderam usar o estoicismo para melhorar sua sociedade, nós também podemos.

 

  1. Esparta era muito mais do que dureza e austeridade: Escrever “Being Better me permitiu dissipar os mitos como o de que os espartanos eram máquinas de matar. Ensinou-me como Kleomenes, com a ajuda de sua esposa e do filósofo Estoico, Esferos, reformou o sistema educacional, estabeleceu caminhos de cidadania para estrangeiros e defendeu incansavelmente por justiça, temperança, coragem e sabedoria (pelo menos como eles concebiam essas virtudes). Mesmo em seus fracassos, os Estoicos espartanos me mostraram que a razão e a justiça eram mais naturais para a humanidade do que o mero massacre na guerra. É interessante para mim como as criações da mídia de massa sobre Esparta, embora muitas vezes divertidas, dizem mais sobre os vícios da sociedade contemporânea do que sobre a antiga Esparta!
  2. As mulheres Estoicas não ficavam em silêncio: se você escutar com atenção, as mulheres Estoicas têm uma voz; nos lembram com determinação que os modelos de comportamento vêm em todas as formas e tamanhos, quer se rotulem como Estoicos ou não. Isso me inspirou a continuar fazendo minha parte para tornar a comunidade Estoica contemporânea tão coesa e coerente quanto possível. Em particular, isso me fez pensar sobre como todos nós precisamos aprender a nos mover em direção à razão e deixar de lado os rótulos que usamos com frequência para nos definir e nos separar dos outros.

Em alguns aspectos, Being Better foi um livro muito difícil de escrever, até porque se rebela contra sua categorização como um livro de “auto- aprimoramento”. Isso ocorre porque ele questiona fundamentalmente o significado e a validade do espaço de “auto-ajuda” – pelo menos como ele é convencionalmente entendido. A ironia não passou despercebida em mim. Na verdade, se Being Better fosse uma pessoa, acho que seria o encrenqueiro que está precariamente perto de ser expulso do grupo por morder a mão que o alimenta. Certamente haveria alguma verdade nesta acusação. Sem sombra de dúvida, Being Better deve sua existência às meias-verdades (e algumas puras mentiras) que desarrumam o espaço do auto- aprimoramento e que, em sua maior parte, constituem a fórmula testada e comprovada do sucesso da autoajuda.

No restante deste artigo, gostaria de mostrar, pelo menos até certo ponto, onde e por que Being Better quebra o molde de “autoajuda” e desafia os praticantes Estoicos, inclusive eu, a lutar com o que é necessário para criar e pertencer a um mundo em que vale a pena viver.

Não existem soluções universais no estoicismo

Muitos livros de autoajuda (não necessariamente os que tratam de Estoicismo) são escritos por pessoas que acreditam que o segredo do seu “sucesso” (não apenas o deles) é o plano de 10 passos, que se seguido à risca garantirá a vida que você sonha. No entanto, essa visão da realidade não poderia estar mais longe do Estoicismo, que sustenta que a capacidade de viver uma vida digna de ser vivida (a vida com a qual os antigos estoicos diziam que deveríamos estar sonhando) é um resultado de quatro funções.

Como Leonidas e eu discutimos em Being Better, apenas um deles, o papel de ser um ser humano racional, é universal para todos. O segundo papel é moldado por nossa natureza individual. Isso inclui nossos gostos, desgostos, traços de personalidade e peculiaridades estranhas. O terceiro é um produto de nossas circunstâncias pessoais, que incluem onde nascemos, onde vivemos agora, se temos filhos ou pais idosos e quanto dinheiro ou influência social temos. O quarto diz respeito ao percurso profissional que desejamos realizar na vida e inclui as nossas opções de carreira: o trabalho para o qual fomos formados e os correspondentes conhecimentos que adquirimos ao fazê-lo.

Todas as quatro funções se combinam para determinar nosso caminho para a eudaimonia. Embora possamos compartilhar alguns passos com outras pessoas, o caminho que traçamos (as escolhas que fazemos e as ações ou omissões que empreendemos) é, em última análise, nosso. É exclusivo para nós porque é criado pela maneira como escolhemos ativamente moldar nosso caráter, à luz de nossas obrigações morais, responsabilidades e o grau de  liberdade que temos para percorrer o terreno (nossas circunstâncias) enquanto estamos vinculados ao metafórica carrugem Estoico. Como Leonidas Konstantakos e eu afirmamos no Capítulo 5:

Nossa capacidade e, portanto, nossa obrigação pessoal de salvar vidas, se, por acaso, formos um mecânico, será diferente de um médico treinado. Da mesma forma, nossa capacidade e, portanto, nossa obrigação pessoal, de promulgar mudanças legais será diferente para aqueles que são advogados ou juízes qualificados. No entanto, espera-se que um Estoico que trabalhe como mecânico obtenha a sabedoria necessária para consertar carros e tratar as pessoas com justiça ao mesmo tempo, pois isso tem um impacto em seu próprio bem-estar e no bem-estar dos outros.

Nada do que eu disse até agora é remotamente controverso ou difícil de entender. Tanto os Estoicos quanto o bom senso dizem que não existem duas pessoas exatamente iguais e que, portanto, obtemos resultados diferentes quando fazemos exatamente a mesma coisa. Para usar um exemplo mundano e um tanto bobo, eu tenho 1,67m, Leonidas tem 2 metros. Se “sucesso” é pegar papel higiênico da prateleira superior de um supermercado, e deve ser alcançado seguindo as instruções de Leonidas para (1) ficar no lugar correto e (2) esticar meus braços no ar e (3) agarrá-lo, então vou falhar se a prateleira estiver mais alta do que posso alcançar fisicamente. Nenhuma quantidade de autoconfiança resultará no crescimento de meus membros adultos. Pode ser um exemplo estúpido, mas, em essência, não é diferente de todos os tipos de afirmações que muitos autores de autoajuda fazem. É por isso que Leonidas e eu escrevemos no Capítulo 1:

Não temos conhecimento de suas circunstâncias pessoais. Não sabemos a natureza dos problemas que você está tentando resolver. Não podemos adivinhar como você e as pessoas ao seu redor reagiriam a qualquer uma das muitas opções possíveis disponíveis para você. Mesmo se o conhecêssemos bem e tentássemos “nos colocar no seu lugar”, o que estaríamos realmente fazendo é considerar sua situação do nosso ponto de vista. Em outras palavras, estaríamos colocando a nós mesmos no que achamos que seja o seu lugar, ao invés de considerar como você deve operar no seu lugar.

Ironicamente, escrever o parágrafo acima vai contra a sabedoria convencional de “auto- aprimoramento” não Estoico, pois está efetivamente dizendo “não vamos lhe dar respostas precisamente porque queremos que você pense bem e se ajude a si mesmo”. Em outras palavras, Leonidas e eu escrevemos Being Better  de modo (esperamos) a propor que você pergunte a si mesmo melhores perguntas, pergunte a si mesmo perguntas que você pode nunca ter pensado anteriormente e, finalmente, pergunte-se como você pode aprimorar-se e melhorar. No meu caso, não é exagero dizer que a qualidade da  minha vida tem sido marcada pela qualidade das perguntas.

Para mim, pessoalmente, Being Better me capacitou a fazer perguntas extremamente difíceis – aquelas que normalmente evitamos, mesmo na comunidade Estoica contemporânea! Por exemplo, o livro me levou a considerar se eu realmente acreditava na afirmação Estoica de que a escravidão é um “indiferente”, ou seja, nem uma virtude ou um vício. Isso me fez perguntar se, e em que medida, o Estoicismo pode ser usado para combater a degradação ambiental por causa das alterações climáticas, a pobreza extrema e a intolerância religiosa / política.

Fico feliz em informar que, no mínimo, Being Better me convenceu de que o Estoicismo é uma ferramenta poderosa que vai muito além de adquirir um eu mais calmo e algumas respostas aos questões cotidianas.

O auto-aprimoramento estoico não é sobre mim, eu e eu mesmo

Quando me deparei com o Estoicismo, e enquanto escrevia para o Daily Stoic , vi uma filosofia que serve à humanidade ajudando os indivíduos a reconhecer e trabalhar em direção ao cosmopolitismo, conforme concebido na teoria dos Círculos de Preocupação de Hierocles. Esses círculos retratam a crença Estoica de que todos pertencemos a uma comunidade universal ligada pela razão ( logos ). Os círculos também retratam visualmente a crença Estoica de que o relacionamento de uma pessoa razoável com os outros começa com o círculo do “eu” e se expande para a “família , “Amigos”,“comunidade ” e “toda a humanidade” e depois, na minha opinião, a “Terra ”.

 

Figura 1. Uma versão contemporânea dos círculos de preocupações de Hierocles, estabelecida pela primeira vez em Whiting et al (2018)

 

Esses círculos nos permitem reconhecer a nós mesmos em toda a humanidade e toda a humanidade em nós mesmos. Isso leva a um entendimento de que o Estoicismo é mais sobre obrigações coletivas, responsabilidades e deveres cívicos do que sobre direitos individuais, um sentimento que é bem captado por Marco Aurélio quando ele diz:

O que não traz nenhum benefício para a colmeia não traz nenhum benefício para a abelha – Meditações 6.54

A frase mencionada de Marco Aurélio é bem conhecida na comunidade Estoica contemporânea. É impossível discordar disso e é o tipo de frase que eu esperaria encontrar colada pela geladeira de um CEO do Vale do Silício, tanto quanto eu esperaria ver em uma mochila Marxista-ecofeminista. O problema é que sentimentos superficiais e citações “lacradoras” podem igualmente apoiar a ideia de “sucesso” como tornar-se um empresário mais eficaz (em seu trabalho principal ou atividade secundária), que ganha dinheiro considerável e “arrasa” para o benefício do cliente e das abelhas acionistas. No entanto, tal abordagem para o sucesso contrasta com a ética Estoica, particularmente os aspectos teológicos.  Leonidas e eu destacamos isso em Being Better, quando discutimos a importância de considerar o bem-estar de todas as seres que compartilham o logos conosco (isso inclui animais, plantas e rochas).

Being Better também alude aos perigos de alguns autores de autoajuda que gerir uma (falsa) impressão de que a humanidade está destinada a viver em um mundo “cobra engoliendo cobra” ou está sujeita a um jogo de soma zero do qual apenas os tolos pensam que podemos escapar. Para mim, o tolo é a pessoa que valoriza a competição em relação à colaboração apenas para perder os benefícios que podem ser obtidos quando optamos por trabalhar pelo bem comum – algo que o filme A Chegada de Denis Villeneuve deixa lindamente claro quando a protagonista destaca as consequências de traduzir a palavra “ferramenta” por “arma”.

Tendo escrito Being Better, eu diria agora que estou mais agudamente ciente de quão rapidamente as falsas noções de competição podem se tornar uma arma para atacar o escudo do cosmopolitismo. Como evidência disso, considere a frequência com que os livros de autoajuda de negócios usam os termos “arrasando” ou “matador” para, ironicamente, descrever alguém que está fazendo algo bem. Com que precisão esmagar, matar ou aniquilar a competição pode nos aproximar da virtude e da eudaimonia? Não me surpreende que esses tipos de livros de autoajuda falhem em mencionar justiça ou sabedoria e restrinjam autocontrole e coragem a ter “autocontrole” ou “coragem” suficiente para “seguir sua paixão” (não exatamente uma mensagem Estoica). Também não ajuda as pessoas se os autores glorificam a realização de sacrifícios em prol de uma existência mais prazerosa ou rica (em vez de virtuosa).

Escrever Being Better  me convenceu mais do que nunca a assumir uma posição contra a ideia de que um mundo que vale a pena viver é aquele em que todos devemos priorizar como nos sentimos em vez de um senso de processamento do pensamento racional, dever e responsabilidade cívica. Para viver verdadeiramente o alerta de Marco Aurélio, temos que incorporá-lo em nossas decisões do dia-a-dia, como o que comemos, o que compramos e o que escolhemos tolerar. Being Better também me fez considerar o quanto todos nós investimos para nos convencer de que não podemos fazer nada porque X ou Y está além do nosso controle. Não seríamos todos Estoicos melhores se investíssemos em nossa agência para obter o controle? A esse respeito, acho que definitivamente há momentos em que todos nós ficamos um pouco complacentes e confortáveis ​​em nosso jardim Epicurista!

Talvez, o estoicismo não seja para todos?

Já ouvi muitos praticantes e acadèmicos Estoicos contemporâneos dizerem que o Estoicismo realmente não é para todos. No entanto, acho que não entendi muito bem de onde vinha isso antes de terminar de escrever Being Better . Embora o Estoicismo certamente não nos chame para fazer proselitismo ou pregar para ninguém, eu estaria mentindo se dissesse que não quero mais praticantes Estoicos no mundo. E, sim, eu seique o tamanho da comunidade estoica contemporânea está muito além do meu ao controle!

Acho que pensei que todas as pessoas que entrassem sinceramente em contato com o Estoicismo simplesmente deslizariam facilmente para a prática. Achei que, se eles entendessem os fundamentos, estariam preparados para aceitar que se trata de uma filosofia de extremos praticada em um mundo de múltiplos tons de cinza. Não tenho mais certeza de que seja esse o caso. Francamente, muitas pessoas querem uma lista de deveres para marcar “feito” e, infelizmente para elas, isso não é Estoicismo!

A filosofia Estoica não tem listas de verificação e faz apenas uma afirmação axiomática: a virtude é o único bem e o vício o único mal. Apesar disso, acho que algumas pessoas podem não querer aceitar que o que é uma ação virtuosa para mim pode não ser uma ação virtuosa para elas, porque no Estoicismo a ação certa a fazer depende da razão por trás disso. Por sua vez, esses motivos são um produto de quem você é e de onde você está naquele momento específico. Isso é simplesmente uma compreensão do mundo que algumas pessoas não aceitam de bom grado porque cheira a relativismo moral, mais não é.

Porém, de acordo com o que expliquei acima, tanto um médico quanto um acadêmico (PhD), como eu, que se deparam com um moribundo são moralmente obrigados a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para auxiliá-lo. No entanto, minha obrigação pode terminar com um simples telefonema, enquanto o médico pode ter que se envolver em uma série de processos complexos (atos virtuosos) que eu não poderia esperar entender.

Pessoalmente, continuo convencido de que o caminho da eudaimonia está aberto a todos os adultos capazes de raciocinar e que o Estoicismo é aquele que nos permite obtê-la. Acredito que uma das minhas obrigações, pelo menos por enquanto, é fazer o meu melhor para garantir que comunico a natureza do Estoicismo. Isso requer que eu desvende o que realmente significa ser indiferente e ter tantas discussões socráticas com os Estoicos contemporâneos quanto possível, para que possamos juntos distinguir o superficial do fundamentalmente importante. Na minha opinião, este é o primeiro passo no caminho para ser melhor e um mundo em que vale a pena viver.

Kai Whiting é o co-author de Sendo Melhor: Estoicismo para um mundo que vahla pena de viver. Ele é um investigador e professor de sustentibilidade e Estocismo basado em a Univerisdade catolica de Louvain, Belgica. Ele tweetea @kaiwhiting e o seu página web é StoicKai.com

[1] Whiting, K., Konstantakos, L., Carrasco, A., & Carmona, L. G. (2018). Sustainable development, wellbeing and material consumption: A stoic perspective. Sustainability, 10(2), 474.

Aldo Dinucci

Doutor em filosofia pela PUC/RJ, professor adjunto de filosofia da Universidade Federal de Sergipe e tradutor de obras estoicas como o Enchiridion e as Diatribes de Epicteto.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Previous Story

Estoicismo não é coaching

Next Story

Uma ‘reflexão matinal’ sobre a ‘mudança de hábitos’ e ‘cura das paixões’

Latest from Blog

withemes on instagram