Podemos nos considerar estoicos?

É com frequência que ouço essa pergunta nos eventos ligados ao estoicismo (tanto por parte dos ouvintes como dos palestrantes). Parece-me que há um incômodo, de alguns, em serem rotulados como seguidores de algum tipo de ‘religião antiga’, ou mesmo confundidos com filósofos de comportamento exótico, coisa bastante comum no que se refere à Filosofia antiga. Por parte de outros, parece-me que há uma necessidade em serem identificados pelo objeto de seu estudo, como se, ao ‘vestir-se’ com os trajes do filósofo, seu entendimento melhorasse qualitativamente. Há também aqueles que, pelo exercício puro da retórica, querem apenas contestar; outros, pertencentes à casta dos acadêmicos, querem dar por encerrado o assunto. O curioso é que desde que entrei em contato com a Filosofia (já faz algum tempo), não ouço a mesma pergunta em relação ao marxismo, platonismo, hegelianismo etc. Por que justamente com o estoicismo isso acontece? Deixarei para outra oportunidade debruçar-me sobre esta questão. Vou diretamente ao ponto proposto pelo título: ao estudar estoicismo, atualmente, podemos nos considerar estoicos?

Conforme Diógenes Laércio (VII, 5), Zenão gostava de ministrar suas aulas caminhando de um lado para o outro na Colunata Pintada (Poikile Stoá), onde, no passado, foram mortos cerca de mil e quatrocentos cidadãos à época dos Trinta Tiranos, e por onde, à época de Zenão, transitavam cidadãos ocupados com seus afazeres diários. Foi nesse ambiente, continua D.L, que as pessoas iam ouvir Zenão, e por isso eram chamadas de estoicos, ou, antes disso, de zenonianos. Aqui temos duas filiações: o local e o mestre. Bastante comum na Antiguidade, a ligação com uma escola filosófica era suficiente para a tê-la como sobrenome, assim como frequentar algum mestre. Nos dias atuais, os acadêmicos são identificados pela instituição à qual suas pesquisas estão vinculadas. No entanto, não o são por seus orientadores. Apesar do nome de meu orientador constar no currículo e, amiúde, ser invocado em algum momento, não sou conhecido por ser um dinucciano, nem conheço qualquer pesquisador com semelhante alcunha.

Ora, apesar de o estoicismo não perder sua influência ao longo dos séculos, não existe mais enquanto instituição. Contudo, existem atualmente alguns centros de estudos estoicos com a proposta de recriar a dinâmica antiga. E para aqueles que se perguntam como isso funcionaria, nos diz Dinucci:

 

Trata-se de usar togas em salas repletas de colunas e estátuas antigas? A resposta a isso, é claro, é negativa. Não se trata de um curso de teatro (o que, aliás, não deixa de ser boa ideia), mas de tomar os conteúdos lecionados na Antiguidade e ensiná-los com as devidas adaptações ao nosso tempo. (https://filosoficojoelson.blogspot.com/2020/08/texto-de-aldo-dinucci-sobre-o.html).

 

Está claro, para mim, que a filiação a um instituto de filosofia estoica não é suficiente para sermos considerados estoicos. Muitos de nós temos apenas curiosidade sobre determinado tema, e isso nos faz buscar cursos e palestras de nosso interesse. Todavia, na Antiguidade, o vínculo a uma escola de filosofia ia além do caráter institucional. Escolher uma escola como a estoica, por exemplo, era o mesmo que escolher um modo de vida. Acontece que eles tinham Zenão, Crisipo, Posidônio etc. Eles tinham o estoicismo em sua originalidade. Então, mais uma vez, alguém poderia indagar: é possível para uma instituição atual reproduzir o ‘espírito’ original dos estoicos através dos textos antigos? Recorro mais uma vez a Dinucci:

 

Podemos conhecer paulatinamente mais acerca desses textos e das ideias neles contidas e seus autores. Não fosse assim, se não se pudesse em nenhuma medida conhecer o sentido original, não haveria sentido em lê-los, seja no original, seja traduzidos. Bastaria tentar adivinhar seu conteúdo olhando para as capas dos livros ou imaginando-os, e não precisaríamos guardar livros antigos. (https://filosoficojoelson.blogspot.com/2020/08/texto-de-aldo-dinucci-sobre-o.html).

 

Está ligado a uma escola filosófica era o mesmo que está ligado ao seu fundador ou escolarca, e isso, como já dissemos, refletia em seu comportamento. Mas qual de nós nos comportamos de acordo com a doutrina que estudamos, ou mesmo conforme as opiniões de nosso orientador? Hoje em dia, o conhecimento acerca do sentido original dos textos, me parece, dá surgimento, parafraseando Epicteto, mais a gramáticos do que, realmente, filósofos. Estar ligado a uma instituição serve menos de vínculo espiritual do que como fonte de patrocínio. Por isso gostaria de propor uma via que me foi despertada por Sêneca, em sua obra Da Brevidade da Vida:

Costumamos dizer não estar sob nosso controle escolher nossos pais, que pelo acaso fomos dados aos humanos. Mas, na verdade, nos é lícito nascer segundo nosso próprio arbítrio. São os filósofos da família dos nobilíssimos gênios: escolhe em qual família queres ser acolhido. Serás adotado não somente no nome, mas também quanto aos seus próprios bens, os quais não deverão ser guardados nem de modo sórdido nem maligno, pois, quanto mais os partilhares entre as pessoas, maiores eles se tornarão. Aqui te darão o caminho para a eternidade e te elevarão a um lugar do qual ninguém pode ser derrubado.

 

A ligação proposta por Sêneca é mais poderosa do que a ligação a um mestre ou a uma instituição. É uma ligação espiritual que perdurará por toda uma vida. Uma filiação fundamentada na escolha; na certeza de que não sermos abandonados. É carregar um nome que não nos deixará envergonhado em circunstância alguma. É uma forma de se apoderar do passado como herança a ser distribuída e multiplicada. Mas, como saberemos se o vínculo é real? Conforme Dinucci:

 

E como sabemos que uma amizade é assim [falsa]? Felizmente, é fácil. Nosso próprio corpo nos avisa. Diante deles, nos sentimos angustiados, entediados, tristes. Isso é nosso corpo alertando: vá embora! (https://aldodinucci.blogspot.com/2021/07/arrancando-o-mal-pela-raiz-quando.html)

 

Quando Sêneca afirma que devemos ter uma ligação espiritual, interpreto como termos consciência dessa relação da mesma forma que temos com a própria natureza em nosso entorno. Mas essa consciência não deve ser confundida apenas com uma racionalidade que lança mão de conteúdos proposicionais:

 

Vejo uma experiência dessa, com o sagrado, como sendo capaz de fazer você perceber que faz parte de um todo maior. Não é saber, ler isso. Não é ter uma compreensão racional, porque isso é fácil e não significa nada. Mas é saber no sentido antigo de experimentar. Então, você vai entender que não vai ser parte só de um todo, mas também de uma sociedade. (DINUCCI: Entrevista cedida ao site Desenha e Filosofa em 15/06/2021).

 

Experimentar para saber. Quantos de nós não ficamos deslumbrados ao nos defrontar com o oceano, com alguma cachoeira, de olharmos do alto para as cidades? Não apenas isso. Quantos de nós não nos sentimos tentados a fazer parte da natureza? Não nos basta só olhar para uma cachoeira, queremos nos molhar nela. Não nos basta ver o oceano, queremos nadar nele. Não nos basta só olhar do alto, queremos voar. São impulsos que, segundo o estoicismo, surgem antes mesmo do desenvolvimento da racionalidade. É nesse sentido que saberemos do real vínculo que temos com os estoicos.

Por fim, se, é através do logos que entramos em contato com os conteúdos produzidos, é por meio de uma relação de amizade, que não difere da relação com o sagrado, que somos impulsionados aos seus autores.   E, se dessa forma, nos sentirmos amigos de Zenão, Cleantes, Crisipo e todos os que a partir deles formam o que chamamos de estoicismo, sim, podemos nos considerar estoicos.

Joelson Nascimento

Doutorando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Professor de Filosofia do Instituto Federal de Sergipe (UFES/SE).

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