O ceticismo autônomo como possibilidade de tranquilidade na turbulência

O ceticismo de São Tomé. Imagem: Michelangelo Merisi de Caravaggio

Ao contrário do que propunha Santo Agostinho (354-430), já que este sustentava que devíamos nos aproximar das coisas divinas, que são as únicas coisas perenes, Montaigne prefere a real certeza de que tudo é incerto e tende a desaparecer e se desagregar.

Agostinho nos diz que se aproximar do devir é pecar, pois é estar preso às vicissitudes e bens corruptíveis do mundo. Ao invés disso o homem deve voltar-se às essências que só podem ser alcançadas na verdadeira morada definitiva que é a eternidade da alma. É pecador e criminoso aquele que repousa sua cabeça no travesseiro confortável e macio de seus gozos (AGOSTINHO, 2019).

O travesseiro do gozo é associado por Agostinho aos céticos e seu travesseiro confortável da dúvida, pois para ele, os céticos pecam ao não perseguirem a verdade.

Montaigne vai construir sua posição cética em oposição a essa de Agostinho.

Sua ideia de tranquilidade em nenhum momento se assemelha à quietude, inação ou comodismo. Ao contrário, a atharaxia (imperturbabilidade), etapa necessária ao bom pensamento cético, só pode repousar na ondulação da incerteza. Pascal concorda com isso ao dizer que, na segunda natureza, a tranquilidade não pode estar em repouso, que significaria a morte (PARRAZ, 2003). Para ele a nossa natureza se torna o movimento, uma ideia montaigneana.

Montaigne diz que os seres humanos estão na passagem, no tempo e, por isso mesmo devem encontrar a tranquilidade nessa passagem, dentro da mobilidade e da mudança.

Blumenberg (apud GIOCANTI, 2021) diz que a inquietude, categoria aceita por Agostinho e Montaigne é o lado emocional da perda da garantia dos sentidos, por isto, para ele, Montaigne é o pai da antropologia filosófica no ensaio cético “Apologia de Raymond Sebond”. Há uma estabilidade dentro da instabilidade do devir, que nos permite dormir e sonhar dentro desse imaginário instável. É na metáfora e, portanto, no imaginário, que se dá o distanciamento do real, daquilo que é ameaçador. É a partir desse distanciamento que Montaigne vê o real com uma atitude de indiferença (nonchalance). Porém, não se deve entender esse conceito como desleixo ou desinteresse, mas como incapacidade de decidir, de diferenciar. É a forma como Montaigne repousa sua cabeça no travesseiro da dúvida, com indiferença (nonchalance).

Eu me estudo mais do que outro assunto. É minha física e minha metafísica…   Nessa universidade, deixo-me manejar pela lei geral do mundo. Eu a saberei quando a sentir. Meu saber (science) não saberia mudar sua rota, ela não se tornará diferente para mim. As inquisições e contemplações filosóficas servem apenas de alimento à nossa curiosidade. Com grande razão, os filósofos nos remetem às regras da Natureza; mas elas não têm nada a fazer com tal sublime conhecimento; eles a falsificam e nos apresentam sua face em cores exageradas e demasiado sofisticada, donde nascem tantos retratos diversos de algo tão uniforme. Como ela nos dá pés para andar, também tem prudência para nos guiar na vida; uma prudência não tanto engenhosa, robusta e pomposa, como na invenção deles, mas casualmente fácil e salutar, que faz muito bem o que diz o outro, naquele que tem a felicidade de saber se empregar ingenuamente e ordenadamente, isto é, naturalmente. Dar-se o mais simplesmente à natureza é dar-se o mais sabiamente. Ó, que travesseiro macio que é a ignorância e a indiferença para descansar uma cabeça bem formada…”.

  • MONTAIGNE livro III, 13, 2001

 

Como dormir tranquilo na dúvida? Como desfrutar da vida na incerteza?

Montaigne dizia: prendendo a amar as coisas em sua “passageiridade” (no alemão – Vergänglichkeit), a transitoriedade, que Freud emprestou para definir as coisas passageiras e que devemos dar valor ainda que as percamos. Pressupõe um trabalho de domesticação do real que não provêm mais das essências e permanências, mas da coleção de aparências que o compõe.

É preciso entender que Montaigne faz um mergulho dentro de si, uma espécie de autoanálise quando isto ainda não havia sido nomeado. Ele havia perdido seu pai e seu melhor amigo, o filósofo Etienné de LaBoetie. Fechando-se em sua biblioteca ele se põe a buscar quem de fato é Michel Eyquem de Montaigne. O resultado desse processo introspectivo de investigação de si mesmo converteu-se no único livro que ele escreveu: “Os Ensaios”. Sobre ele Montaigne diz:

Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e habitual, sem apuro e artifício: pois é a mim que pinto. Nele meus defeitos serão lidos ao vivo, e minha maneira natural, tanto quanto o respeito público mo permitiu. Pois, se eu tivesse estado entre aqueles povos que se diz viverem ainda sob a doce liberdade das primeiras leis da natureza, asseguro-te que de muito bom grado me teria pintado inteiro e nu. Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria do meu livro: não é sensato que empregues teu lazer em um assunto tão frívolo e tão vão.

  • MONTAIGNE, 2001, p. 5

E também:

Os outros formam o homem; eu o descrevo, e reproduzo um homem particular muito mal formado e o qual, se eu tivesse de moldar novamente, em verdade faria muito diferente do que é. Mas agora está feito. Ora, os traços de minha pintura não se extraviam, embora mudem e diversifiquem-se. O mundo não é mais que um perene movimento. Nele todas as coisas se movem sem cessar: a terra, os rochedos do Cáucaso, as pirâmides do Egito, e tanto com o movimento geral como com o seu particular. A própria constância não é outra coisa senão um movimento mais lânguido. Não consigo fixar meu objeto. Ele vai confuso e cambaleante, com uma embriaguez natural. Tomo-o nesse ponto, como ele é no instante em que dele me ocupo. Não retrato o ser. Retrato a passagem; não a passagem de uma idade para outra ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas de dia para dia, de minuto para minuto. É preciso ajustar minha história ao momento. Daqui a pouco poderei mudar, não apenas de fortuna mas também de intenção. Este é um registro de acontecimentos diversos e mutáveis e de pensamentos indecisos e, se calhar, opostos: ou porque eu seja um outro eu, ou porque capte os objetos por outras circunstâncias e considerações. Seja como for, talvez me contradiga; mas, como dizia Dêmades, não contradigo a verdade. Se minha alma pudesse firmar-se, eu não me ensaiaria: decidir-me-ia; ela está sempre em aprendizagem e em prova.

  • MONTAIGNE, Livro III, 2, 2001

 

Perceba-se aqui seu descanso na inquietude. O filósofo, incapaz de encontrar e definir sua essência, se tranquiliza ensaiando a partir da coleção de suas facetas do real. Ele não é um Michel de Montaigne, mas vários. Tantos quantos for capaz de produzir em sua vida.

Vivemos, modernamente, num imenso mar de aparências. Porém, temos dificuldade em nos darmos conta de que essas aparências nos constituem. Vivemos ainda sob o paradigma agostiniano que diz que esse mundo real é que é passageiro e que devemos aguardar o fim deste para ingressarmos no verdadeiro mundo de Deus.

O problema está no fato de que seja esse mundo em que estamos o único em que temos algum grau de certeza que exista. A angústia, principal sintoma de nosso tempo e gerador de tantos transtornos, surge exatamente pela incerteza de que a perspectiva agostiniana esteja correta, pois se não estiver teremos perdido toda uma vida inteira na qual poderíamos ter desfrutado das vicissitudes e pecados do mundo de forma bem menos coercitiva.

As religiões do mundo, especialmente as monoteístas, se ergueram e se mantém por meio desse sustentáculo. Ele pode trazer algum conforto, do ponto de vista crença numa existência extraterrena da alma, porém, principalmente com a Modernidade, em que a fé passa a ser disputada entre Estado e Igreja, a secularização abalou irremediavelmente a possibilidade de uma tranquilidade postergada ao além morte, pois criou uma suspeição de que isto possa não ocorrer como as religiões prometem.

De tal sorte, é em meio a essa dificuldade de aceitar as incertezas enquanto possibilidade de repouso no movimento que a racionalidade, tão valorizada na Modernidade, acaba sucumbindo ao processo de desconstrução das antigas certezas. Se Agostinho dizia: “Se crerdes entenderás”, a secularização, essa nova religião, se pergunta: “Que razões tenho para crer?”, ou seja, a dúvida intrínseca, mais profunda e imperceptível que aquela hiperbólica e metódica de Descartes, acaba criando uma cisão indelével naquilo que antes era seguro. Por mais que Kant e seus discípulos tenham tentado transferir para a razão a estabilidade que antes era atribuída ao mundo, é impossível esquecer que ela tem problemas bastante complicados ao lidar com as emoções que também compõem a existência humana e, por isso mesmo, não consegue oferecer segurança suficiente para gerar tranquilidade. É claro que há aqueles que criam para si um universo racionalizado e metódico e pensam viver felizes dessa forma, mesmo sem saber que isso beira algumas figuras de transtornos psíquicos bastante descritos como as psicopatias e perversões, por exemplo. Também há aqueles que pensam abolir essa dicotomia e ambiguidade se entregando fervorosamente às suas crenças religiosas e abrindo mão da possibilidade de desfrutar do mundo e seus gozos, mas para esses também há a figura das neuroses, depressões, ansiedades e tantos outros transtornos derivados do recalcamento dos desejos, como descreveu Freud.

Bem, o que fazer para viver nesse mundo e ainda repousar a cabeça no travesseiro macio?

Sylvia Giocanti, filósofa contemporânea estudiosa do ceticismo montaigneano sugere que façamos como ele propôs, isto é, que convivamos de forma pacífica com a incerteza. Para isso será preciso que nossas crenças se tornem provisórias, aumentando nossa capacidade de mudança e de adaptação a ela. Algo semelhante ao que hoje chamamos resiliência. Será preciso perceber que as únicas certezas que temos nesse mundo são a incerteza e impermanência. Dessa forma aprenderemos a perceber e sentir as mudanças como naturais da nossa existência. Aprenderemos a navegar com tranquilidade o mar de aparências de movimento perene.

A saúde mental está associada à aceitação de nossa condição e de nossas frustrações. Somos máquinas desejantes, como dizem, Deleuze e Guatarri (2011) e essa insaciedade é produtora das frustrações que, se por um lado constituem nosso processo de amadurecimento, de outro lado também produzem nosso adoecimento psíquico, a depender da forma como lidamos com os afetos (ESPINOSA, 1974) A forma como processamos essas frustrações, se as percebemos como potência de vida (conatus) e aprendizagem ou se as colocamos como potência de morte e infelicidade está diretamente ligada à nossa visão de mundo, àquilo que Freud chamou de Weltanschauung (cosmovisão). Dessa forma, um evento que poderia derrubar alguém com facilidade à depressão e melancolia, para outros se torna uma forma de transformação e adaptação que o leva a um novo equilíbrio.

O ceticismo autônomo, como proposto por Sylvia Giocanti, tem essa dimensão prática de pensar e estabilizar a própria vida, o pensar a si mesmo a partir da aceitação do devir enquanto condição humana. Nesse sentido, constitui-se numa ferramenta psíquica, não meramente conceitual ou filosófica, mas que diz respeito ao próprio sujeito e à sua capacidade de se construir enquanto ser humano. Pensar o real como incerto e tomar a dúvida inerente do devir como travesseiro macio e doce do qual não seja preciso se livrar para ter de escolher compulsoriamente um lado das inúmeras questões e mudanças às quais estamos cotidianamente submetidos (diaphonia), pode significar uma maneira de não termos de optar por reprimir todos os nossos desejos ou dar vazão a todos eles, mas que possamos emitir respostas provisórias, experimentações ou ensaios de nós mesmos com os quais aprendamos a nos tornar verdadeiramente humanos.

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO – Sobre o livre-arbítrio, São Paulo, Ecclasiae, 2019.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix – O anti-Édipo, Editora 34, 2ª edição, 2011.

FREUD, Sigmund – Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos (1932-1936) (Volume 22), Editora Imago, 1996.

GIOCANTI, Sylvia – O ceticismo de Montaigne: Uma forma pacífica de incerteza, Seminário virtual, disponível em: https://vimeo.com/518296004, 18/04/2021.

MONTAIGNE, Michel Eyquem de – Os ensaios, São Paulo, Martins Fontes, 2001.

PARRAZ, Ivonil – O existencialismo em Pascal, Marilia, Trans/Form/Ação, vol. 26 nº1, 2003, disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732003000100005, 16/04/2021.

Leandro Gaffo

Professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Geógrafo, Filósofo, Psicanalista, Mestre em Geografia Física e Doutor em Ciências da Religião.

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