Albert Ellis: Tre — Terapia Racional Emotiva

“Não são as coisas que inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas…”

“A denúncia dos enganos da opinião que se apoia no ouvir dizer, sem reflexão, é comum a todo socratismo. Tal denúncia é acompanhada pela afirmação do caráter terapêutico da critica à opinião, que se traduz pela eliminação dos sofrimentos e dos medos que têm sua origem na ignorância…” Aldo Dinucci, Manual de Epicteto – ed Auster.

O trecho acima do Manual corrobora com Robertson: “…as origens filosóficas da Terapia Cognitiva repousam sobre a antiga tradição estoica e se utilizam da mesma máxima de Epicteto – de que os homens não são perturbados pelas coisas e sim pela opinião que tem delas – para ilustrar o modelo cognitivo de depressão (Robertson, 2012). …Ellis utilizou o pensamento de Sêneca para elaborar suas teorias…

SOBRE A TERAPIA RACIONAL EMOTIVA COMPORTAMENTAL (REBT- sigla em inglês)

Usarei neste trabalho a sigla em Português (TRE) que é uma forma de psicoterapia desenvolvida por Ellis (1913-2007), em meados do século passado, cuja principal suposição é a de que os problemas psicológicos resultam da interpretação irracional que as pessoas fazem de eventos cotidianos por elas vivenciados (Colman, 2015).

Destaca-se que a TRE é uma terapia de reestruturação cognitiva, a qual baseia-se no chamado ABC, que propõe que determinada experiência ou evento (A) no mundo externo ativa, em nossa mente, crenças individuais (B), as quais geram consequências (C) emocionais, comportamentais e psicológicas (Knapp e Beck, 2008). Assim, o que faz com que duas pessoas se comportem de maneira diferente à mesma situação são crenças, às quais auxiliam na avaliação do acontecimento e na escolha do comportamento.

A primeira forma largamente utilizada de terapia cognitiva foi a TRE, desenvolvida por Albert Ellis: posteriormente tornou-se influente o modelo de Aaron Beck… Ellis (1980) destaca inúmeras diferenças entre seu modelo de terapia e às demais psicoterapias cognitivas-comportamentais. Uma dessas diferenças é a ênfase filosófica que, segundo ele, é muita mais específica na TRE, do que na maior parte de outras terapias. Para este modelo, o ser humano é um filósofo nato, criador de significados, que usa a razão para predizer o futuro.

Segundo o psicólogo, a TRE visa fazer com que as pessoas compreendam que grande parte de seus problemas emocionais se devem a crenças absolutas e irracionais sobre eventos e outros indivíduos: assim, tais pessoas devem trabalhar ativamente para modificar seus pensamentos, sentimentos e comportamentos prejudiciais à sua própria felicidade e bem estar.

Por fim, é importante ter em mente como Ellis compreende as emoções. Segundo ele, sua psicoterapia discrimina especialmente as emoções negativas, como sofrimento, arrependimento e frustração, que se originam quando a pessoa não realizou aquilo que desejava; das emoções como, depressão, pânico, raiva e inadequação, às quais são fruto de um pensamento irracional no qual prevalece a sensação de “devo ser ou fazer, ou ainda, preciso ter” Ellis (1980).

A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA ESTOICA PARA ALBERT ELLIS

A filosofia possuía uma importância muito grande para Albert Ellis que começou a se interessar por ela aos 15 anos (O’Kelly e Colard, 2015). A importância atribuída por ele à filosofia é tamanha que o mesmo afirma que talvez sequer teria desenvolvido a específica concepção da TRE se não tivesse lido filosofia por mais de 15 anos…

Overholser (2003) descreve a resposta de Ellis ao ser questionado quais seriam as figuras históricas mais influentes no seu pensamento no desenvolvimento inicial da TRE:

Principalmente filósofos, porque eu derivei a teoria da ter principalmente dos filósofos antigos asiáticos, como, Gautama Buda, Lao Tse e Confúcio, e os gregos e romanos, Epicteto, Marco Aurélio, Epicuro, Sêneca, e, outros. Eu, também a derivei de muitos filósofos construtivistas, como, Immanuel Kant, Bertrand Russel, John Dewey, e Ludwig Wittgenstein (Ellis, 2003). Ellis chegou a afirmar que a criação da TRE foi muito mais influenciada por filósofos do que por psicólogos por ele estudados (Dryden, David e Ellis, 2009). Ellis enfatizava a importância de alguns pensamentos em sua teoria, pois considerava que muitos dos conceitos e princípios utilizados por ele já teriam sido “descobertos” por pensadores mais antigos e, portanto, não seriam ideias originais suas. …Cícero, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio também declaram que as crenças afetam significativamente os problemas emocionais (David, Lynn e Ellis, 2010).

As crenças racionais e irracionais são centrais na teoria psicológica de Ellis, pois postula-se que as crenças irracionais estão associadas às emoções negativas saudáveis, como, tristeza e desapontamento, enquanto as irracionais, às emoções negativas prejudiciais, como, depressão e vergonha (Dryden, David e Ellis, 2009).

Em outras entrevistas e artigos, Ellis também apontou diferentes princípios psicológicos utilizados por ele que teriam sido descobertos por pensadores de épocas diferentes, desde filósofos antigos gregos e romanos, até os modernos, conforme podemos observar no trecho a seguir:

Este princípio, o qual nós recentemente redescobrimos de materiais de muitas sessões psicoterapêuticas com dezenas de clientes, foi originalmente, percebido por inúmeros filósofos gregos e romanos, e talvez melhor estabelecido pelo famoso estoico Epicteto, o qual, no primeiro século depois de Cristo, escreveu no Encheridion: Os homens são perturbados não pelas coisas, mas pela visão que eles têm delas. William Shakespeare, muitos séculos depois, parafraseou este pensamento em Hamlet: “não há nada bom ou mau, mas pensar o faz ser” (Ellis e Harper, 1961).

O psicólogo estadunidense se entende, então, como um “redescobridor” moderno dessas verdades científicas guiado pelos estudos filosóficos que realizou, assim como seria guia para os terapeutas atuais. Em suas palavras:

Embora quase todas as terapias cognitivas-comportamentais tenham seguido minha liderança – assim como eu segui a de Epicteto (1890), Marco Aurélio (1980), e outros filósofos iniciais – e sustente que as crenças irracionais levam à perturbação humana, eles frequentemente deduzem que todas as irracionalidades produzem desordens emocionais (Ellis, 2015).

CONSIDERAÇÕES SOBRE O USO DA OBRA E DO PENSAMENTO DE SÊNECA POR ALBERT ELLIS

Como já apontado, Ellis considerou essencial para o desenvolvimento de sua terapia, leituras filosóficas realizadas durante toda a sua vida. Destaca-se a citação apontada por Still e Dryden (2012), onde afirma:

Eu introduzi este princípio do ABC da perturbação emocional depois de trabalhar com centenas de clientes, a partir de 1943 a 1955. Mas eu também levei isto de muitos filósofos que eu estudei de 1929 (quando eu tinha 16 anos) em diante. …o mais claro dentre todos os antigos eram os estoicos gregos e romanos, especialmente, Zenão (o fundador da escola), Crisipo, Panécio de Rodes, Cícero, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (Ellis, 1994, Still e Dryden, 2012).

Ellis (1997) ao abordar o desenvolvimento da terapia por ele fundada, explica o valor de Sêneca para a descoberta de um dos mais relevantes princípios da terapia racional:

Eu particularmente notei, quando descobri como a minha ansiedade sobre meu sono estava interferindo em meu sono, que eu estava com ambos os sintomas primários e secundários de minha neurose. Eu posso ter sido ajudado a esse respeito pelos filósofos, alguns dos quais notaram a mesma coisa. Assim, Sêneca, mais de dois mil anos atrás, foi talvez o primeiro a notar o que o escritor de histórias de fantasmas Franklin D Rooselvelt plagiou dele: ‘não temos nada a temer senão nosso próprio medo (Ellis,1997).

O estoico, então, dedicou parte de sua filosofia à descrição de modos de viver virtuosamente, e assim, chegar à felicidade. Em decorrência da observação de Luciane Omena (2011) que aponta que, ainda que existissem várias maneiras de definir filosofia, Sêneca a interpretava como sendo o estudo da virtude, pois filosofia e virtude eram inseparáveis. Por exemplo, a autora aponta que, na obra – Da Tranquilidade da Alma, o filósofo discutiu a relação dos males que sobrevêm ao homem, e indicou remédios proporcionados pela filosofia.

Ellis acreditava ter elaborado concepções semelhantes às de Sêneca, novamente, quando decide abordar a emoção, raiva ou ira. Sêneca descreveu a ‘ira’ como a mais hedionda, desenfreada e frenética dentre todas as paixões. …Ellis enfatizava que observava em seus clientes as mesmas interferências emocionais vistas por Sêneca e outros estoicos, a de que a raiva tem a capacidade de nublar a habilidade das pessoas de raciocinar de forma eficaz.

Sêneca defende que as paixões tumultuam a mente, pelo fato de serem julgamentos que atribuem alto valor aos bens e às vantagens e não à virtude. Apenas esta, possui valor ético e deve guiar as ações humanas. …técnicas terapêuticas que se utilizassem da arte racional de modo eficiente para substituir julgamentos falsos por corretos, bastariam para moderar as paixões e cura de doenças por ela causadas. Para Sêneca, a busca permanente pela virtude levaria ao afastamento das paixões que encolerizam os indivíduos e os distanciava do autodomínio (Omena, 2011).

Os resultados dessa pesquisa indicam que Ellis, não só reconhecia essa influencia dos estoicos, no desenvolvimento de suas teorias, bem como, acreditava na proximidade epistemológica entre o sistema estoico e o seu, principalmente no que diz respeito ao estudo das emoções. Além disso, avaliava os pensadores estoicos como importantes para a atualidade.

Ellis realizou uma leitura contemporânea dos escritos antigos, sobretudo os de Sêneca. Demonstrou que a partir do passado é possível gerar novas e produtivas ideias para o presente, o que possibilita um desenvolvimento mais rico, diverso e plural das teorias psicológicas.

Trechos extraídos do texto História Antiga e Usos do Passado: ressignificações do pensamento de Sêneca pela abordagem cognitivo-comportamental da ciência psicológica, por Dominique Vieira Coelho dos Santos, doutor em História Antiga, da FURB, Blumenau e Beatriz Isabel Zendron Range, graduanda em Psicologia pela FURB.

CONCLUSÃO

O ABC da sensibilidade racional de Albert Ellis, criador da TRE significa: A – fato ou experiências ativadoras, B – sistema de crenças básicas (atitudes, opiniões, filosofia de vida e valores básicos), C – consequências emocionais. O ABC é simples, porém não significa fácil. Exemplos: dietas, parar de fumar, abandonar uma velha superstição, atividades simples, mas incrivelmente difíceis.

Começa-se com o C, em seguida, o A. Por exemplo, supondo que em C você está aflito, desordenado, deprimido, etc, será que o A provocou as consequências emocionais? Obviamente que não. O verdadeiro culpado é o B, pois este consiste em duas crenças básicas distintas e bem separadas. Uma, são as crenças racionais básicas, a outra, são as crenças básicas altamente irracionais. Somos seres humanos. Essas crenças são insensatas, inteiramente mágicas, juízos de valor que não podem ser empiricamente confirmados, e não guardam uma relação autêntica com a realidade. O que fazer? Discutir, contestar, questionar as crenças irracionais básicas: -precisam do que querem; -têm que ter o que preferem; -devia, tinha, não existe no universo, mas um bocado de, seria melhor quê! -baixo quociente de tolerância à frustração: renúncia ao hedonismo de curto prazo e à necessidade premente da aprovação dos demais: adiar o prazer hoje, para ter um ganho no futuro; e, -avaliação exagerada dos fatos da vida (catastrofização), mas avaliar os fatos em si, etc.

A sensibilidade racional ensina a aceitar – não gostar ou encorajar, mas aceitar realisticamente todos os infortúnios que a realidade lançar em seu caminho e depois calma, determinada e persistentemente tentar aliviá-los. Demonstra-lhe como viver empírica e pragmaticamente, sem ilusões, mas com abundância de objetivos, valores e ideais. Ela promove a tolerância, a largueza de vistas e a flexibilidade. No fundo, o que chamamos de perturbação emocional é uma espécie de nome bonito de intolerância, miopia mental e rigidez. A sensibilidade racional não tem absolutamente certeza de coisa alguma, de bom grado aceita a probabilidade, o destino, o acaso. É soberbamente humanista, começa e termina no homem… Ela tenta ajudá-lo a conseguir mais – na verdade, muitíssimo mais! – daquilo que o homem quer (objetivos que aumentam sua satisfação e lhe diminuem a dor) e a crescer e aceitar as frustrações, mágoas e privações inevitáveis.

Trechos extraídos do livro Liderança Executiva – uma proposta racional, Albert Ellis, ed Record, 1972.

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