A DIFÍCIL TAREFA DE SER MULHER: UMA LEITURA DO ELOGIO DE HELENA DE GÓRGIAS

Texto da nova edição do Pórtico de Epicteto. Vejam aqui: https://seer.ufs.br/index.php/Epict/issue/view/1139

Cleudo Melo Araujo

Thatiane Santos Meneses

  1. Introdução:

O presente trabalho visa fazer uma análise sobre a figura da mulher e o quanto é difícil exercer o papel de ser mulher desde os primórdios da civilização. Para tanto, utilizaremos como referencial a personagem Helena de Tróia da obra O Elogio de Helena de Górgias.

Górgias é considerado por alguns pesquisadores, a exemplo de Giovanni Casertano, um dos mais importantes representantes do movimento filosófico denominado de “Os Sofistas”, que teve uma grande atuação em Atenas, no século V a.C.. O referido movimento tinha por finalidade precípua ensinar técnicas de persuasão aos jovens atenienses, de modo que estes pudessem discursar e expor suas opiniões sobre quaisquer assuntos. 

Pouco se sabe sobre a vida de Górgias. O registro confiável que se tem é o fato dele ser natural da cidade de Leontino, colônia grega da Sicília, e que foi discípulo de Empédocles. Outro fato sobre a vida desse sofista é que por volta dos anos 427 a.C. fizera uma viagem para Atenas a fim atuar como embaixador de Leontinos, tendo como missão convencer o governo ateniense a prestar assistência militar ao seu povo contra Siracusa. Pesquisadores afirmam que esta foi a primeira vez que Górgias chamou a atenção dos atenienses para seus discursos.

Há relatos de que Górgias era capaz de discursar sobre qualquer tema, tal afirmação pode ser comprovada por meio da leitura de algumas obras de Platão, a exemplo do Mênon (70b-c) e do Górgias (447-d). 

Foram achados poucos escritos deixados por Górgias. Sabe-se que a ele são atribuídos seis textos: Elogio de Helena; Defesa de Palamedes, Epitáfio; Tratado do Não-Ser; Discurso Pítico e Discurso Olímpico. Do Tratado do Não-Ser, não fora localizado o texto original. Do Epitáfio, nos chegaram apenas fragmentos. Os dois discursos se perderam. Apenas o Elogio de Helena e a Defesa de Palamedes foram achados intactos.

Estas duas últimas obras têm em comuns dois fatos: primeiro, é o fato de que ambas são defesas jurídicas; segundo, ambas possuem como plano de fundo a Guerra de Tróia, importante acontecimento para os gregos e que foi retratada por alguns artistas da época, a exemplo do poeta Homero.

Nas próximas linhas debruçaremos nossas análises a obra do leontino intitulada O elogio de Helena, especialmente sobre umas das principais personagens Helena, que dá nome ao texto.

  1. Helena de Tróia e a difícil tarefa de ser mulher

A Guerra de Tróia foi um conflito entre gregos e troianos que durou cerca de dez anos. O motivo do conflito teria sido o sequestro de Helena, esposa do rei espartano Menelau, por Páris, príncipe de Troia. Então, o irmão de Menelau, Agamemnon juntou suas tropas para invadir as muralhas de Troia e tentar resgatá-la. A guerra chegou ao fim depois que os troianos aceitaram o famoso presente de grego: um cavalo de madeira recheado de soldados inimigos que ficou conhecido como Cavalo de Troia. Os troianos perderam a guerra e Menelau levou Helena de volta para Esparta.

Segundo a literatura antiga, a Guerra de Troia começou na verdade por causa de uma birra entre os deuses do Olimpo. Éris, a deusa da discórdia, ofereceu um pomo de ouro a Hera, Afrodite e Atena. A mais bela das três seria merecedora do objeto. Para decidir a questão, Zeus enviou as três a Páris, que escolheu Afrodite como a mais bela. Em troca, a deusa do amor fez com que Helena, a mulher mais bela do mundo, se apaixonasse por ele. Esse é um panorama geral da guerra.

No Elogio de Helena, Górgias tem por objetivo demonstrar não só a inocência de Helena que, para ele, fora acusada injustamente der ser a causa da Guerra, mas também mostrar os erros de quem criticou Helena. 

O sofista elenca algumas hipóteses que poderiam ter levado Helena a se deixar seduzir por Paris e, em todos os cenários descritos, ela é mostrada como inocente. 

É fato que nos idos do século V a.C.  Górgias mal poderia imaginar o quão difícil seria ser mulher neste mundo. O sofrimento de Helena, retratado no Elogio de Helena, se torna bem atual nessa sociedade que tem se mostrado cada dia mais machista e opressora. 

A origem divina de Helena, a sua beleza, entre outros atributos podem ter sido a causa dela ter despertado os desejos passionais em tantos homens. Mas que culpa teria Helena nisso? A mulher não pode ser bela? Ser inteligente? Essa é a primeira reflexão que levantamos no presente trabalho.

No parágrafo segundo Górgias já convida os leitores a respeitar Helena e aponta que tudo que foi feito contra ela está errado:

(2) Cabe ao mesmo homem dizer também o que se deve, corretamente, e convencer do erro os que criticam Helena, mulher em relação à qual se fizeram uníssona e unânime tanto a crença que ouvem os poetas quanto a fama de seu nome, que se tornou memória de infortúnios. Eu desejo, ao oferecer pelo discurso uma explicação e ao revelar a verdade, suprimir a responsabilidade dela, que tem erradamente uma má reputação, e suprimir a ignorância, denunciando os que, enganados, criticam-na. (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 67-68).

No final do parágrafo quinto Górgias afirma ter sido justa a ida de Helena para Tróia. Por justo devemos entender que foi compreensível. Ele diz nos seguintes termos: “irei expor as razões graças às quais foi justo ter ocorrido a ida de Helena para Tróia”. (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 68).

Em seguida o leontino passa a exibir os motivos pelos quais Helena não teve outra alternativa que não fosse a ida para Tróia e elenca três possíveis hipóteses que poderiam ter levado Helena a partir de Esparta com Páris para Tróia. Vejamos: 

(6) Pois ela fez o que fez ou pelos anseios da fortuna e pelas resoluções dos deuses¹ e pelos decretos da necessidade ou agarrada à força² ou seduzida pelas palavras ou capturada pela paixão³. Se, pois, foi graças à primeira [razão], o responsável merece ser acusado. Pois é impossível se opor, pela diligência humana, ao desejo divino. Pois é por natureza não o mais forte ser detido pelo mais fraco, mas o mais fraco pelo mais forte ser comandado e conduzido. Por um lado, o mais forte comanda. Por outro, o mais fraco obedece. O divino é mais forte que o homem tanto pela força e pela sabedoria quanto pelas demais coisas. Pois se é necessário atribuir a responsabilidade à Fortuna e ao divino, nesse caso é necessário libertar Helena da ignomínia. (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 68-69). Grifou-se.

Notem que nessa primeira hipótese levantada, Górgias não condena Helena, e sim Páris, uma vez que ele, sob influência do poder do divino, é que fez com que Helena aceitasse ir com ele para Tróia. E não há força que lute contra o divino.

No parágrafo seguinte Górgias já traz a segunda hipótese, que é a de que Helena pode ter sido levada à força. E aqui aproveitamos para registrar que essa segunda possibilidade levantada pelo leontino é uma das mais frequentes em nossa atualidade. Mulheres são obrigadas pela força de seu companheiro, seu superior hierárquico, um familiar, uma série de personagens que podem levar a mulher, vítima assim como Helena, a fazer coisas das quais certamente não queria, mas não consegue ir contra a força do opressor.

(7) Se foi arrebatada à força, ilegalmente submetida e injustamente tratada com insolência, é evidente que agiu ilegalmente quem tanto a arrebatou quanto a tratou com insolência, [enquanto] ela, sendo tanto raptada como ultrajada, teve má fortuna. Pois é o bárbaro que lançou mãos ao bárbaro empreendimento quem merece [a pena], tanto pelo discurso e pela lei quanto pela ação. Pelo discurso, encontrar-se-á [condenado] pela responsabilidade. Pela lei, à perda de direitos. Pela ação, ao pagamento de uma multa. Ao ter sido submetida à força, privada da pátria e afastada dos amigos, como não, com razão, ela antes inspiraria piedade que difamação? Pois ele fez coisas terríveis, ela sofreu a ação. É justo ter piedade dela e a ele odiar. (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 69). Grifou-se.

Nesta última alternativa, que também é muito comum em nossos dias, as mulheres são levadas a erro pelo discurso daquele que virá a ser seu algoz. Isso é bastante comum nos casos de violência doméstica, em que as mulheres acreditam no discurso de seus companheiros, discurso este carregado de emoções que mexem sobremaneira com o interior da ouvinte. Como Górgias diz, as palavras afetam a alma:

 (8) Se o discurso a persuadiu e sua alma enganou, não é difícil, quanto a isso, defendê-la e, assim, liberá-la da responsabilidade. O discurso é um grande e soberano senhor, o qual, com um corpo pequeníssimo e invisibilíssimo, diviníssimas ações opera. É possível, pois, pelas palavras, tanto o medo acalmar e a dor afastar quanto a alegria engendrar e a compaixão intensificar. Que assim são essas coisas, mostrarei.

 (9) É necessário também mostrar, pela opinião, aos ouvintes. Considero e designo toda poesia discurso metrificado. Um estremecimento de medo repleto de espanto, uma compaixão que provoca lágrimas abundantes, um sentimento de nostalgia entra no espírito dos que a ouvem. A alma é afetada – uma afecção que lhe é própria –, através das palavras, pelos sucessos e insucessos que concernem a outras coisas e outros seres animados. Mas passemos de um a outro discurso.

(10) Pois os mágicos e sedutores cantos, através das palavras, inspirados pelos Deuses, produzem prazer afastando a dor. Pois o poder do mágico canto, que nasce com a opinião da alma, encanta-a, persuade-a e modifica-a por fascinação. Duas artes são descobertas: a fascinação e a magia, que são os erros da mente e os enganos da opinião.

(11) Quantos persuadiram e persuadem outros tantos a propósito de outras tantas coisas forjando um falso discurso![…] (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 69-70). Grifou-se.

Mais adiante ele diz “(15) E que se diga: se foi convencida pelo discurso, não foi injusta, mas foi desafortunada”. (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 72).

Sobre as emoções, é preciso destacar que elas podem ser de toda ordem, podem despertar a paixão e também o medo. O medo do que poderá ser feito caso a pessoa não faça aquilo que o seu opressor está ordenando. E sobre este ponto Górgias aduz que “(17) A partir disso, alguns que veem coisas terríveis perdem, neste preciso momento, a presença de espírito, de modo que o medo extingue e expulsa a reflexão” (GÓRGIAS in Dinucci, 2017, p. 72).

Observem que em todos cenários, Górgias descreve Helena como inocente, ao contrário do que muitos defendiam à época. 

Queremos dizer com isso que as mulheres, sob quaisquer circunstâncias, são inocentes? Não. Mas sim, que é preciso haver uma mudança urgente na cultura da criminalização da mulher que, ao contrário do que fez Górgias com Helena, sempre vê a mulher como culpada em todas as circunstâncias. 

Não é preciso nem ir muito longe para percebermos isso. Frequentemente nos deparamos com notícias de diversos crimes contra a mulher, dentre eles, o mais recorrente é o estupro e o feminicídio, e após cada veiculação de fatos como estes, o primeiro comentário que ressoa é: “foi culpa dela”. Mas devemos nos perguntar: Onde estão as políticas públicas? Quais as responsabilidades dos governos federal, estadual e municipal nesse cenário de violação dos direitos das mulheres?

Há pouco tempo tivemos a caso da criança que foi estuprada pelo próprio tio e infelizmente engravidou. Muitas pessoas ditas como religiosas, a acusaram de ter instigado o tio de ter praticado o ato contra ela, condenaram o direito da criança de interromper uma gestação que além de ser indesejada, lhe traria danos irreparáveis para sua saúde física e mental.

Podemos citar também o caso de Mariana Ferrer, que além da violência sofrida no momento do crime, sofreu outra quando da audiência em que a mesma foi ouvida sobre o caso do estupro, mostra de forma clara o machismo e a cultura do estupro que foi instalada no mundo, como uma forma de tentar naturalizar esse crime tão brutal. E não só isso, reforçar a ideia de que a culpa é sempre da mulher, que deixa o lugar de vítima e passa a ser protagonista do delito.

Giovana Rossi, na descrição de seu livro “A Culpabilização da Vítima no Crime de Estupro: Os Estereótipos de Gênero e o Mito da Imparcialidade Jurídica” define bem essa situação. Ela diz:

“A presente obra pretende analisar o crime de estupro sob a perspectiva de gênero, destacando-o como produto das relações sociais desiguais entre homens e mulheres. Objetiva-se, principalmente, verificar se, ao julgar processos envolvendo esse delito, os magistrados analisam de forma imparcial o fato em si ou se também se reproduzem preconceitos e discriminações, em especial em relação à mulher, que reforçam as desigualdades de gênero e naturalizam ou até mesmo justificam a violência sexual”. 

O flagelo de mulheres, o linchamento gratuito nas redes sociais, a “criminalização” do feminismo, especialmente pelos ditos religiosos, entre tantos outros fatos, vem tornando a vida da mulher cada vez mais difícil.

  1. Conclusão

Ao propormos esse recuo até a Antiguidade, mais concretamente até a Grécia Antiga, pretendíamos contrapor o estatuto social da mulher ateniense a uma perspectiva valorizadora da mulher contida na visão de Górgias.

O comportamento ideal que era esperado da mulher, àquela época, era de recato, castidade, simplicidade, ou seja, qualidades que eram consideradas como o código da boa educação feminina e que, na verdade, não era mais do que a ideia grega de temperança.

Nesse sentido, a principal virtude da mulher era prestar obediência àquele que detinha o poder sobre si – seja ele o pai, marido ou qualquer outro homem que estivesse autorizado legalmente a substitui-los. Assim como um escravo devia obediência ao seu senhor, a mulher devia obediência à figura masculina e dele deveria depender a sua condição.

Além da obediência irrestrita, a mulher grega também deveria cultivar a descrição e a moderação, afastando-a, dessa forma, da realidade social e política na qual estava inserida. Assim como estrangeiros e escravos, a mulher não pertencia ao grupo daqueles que recebiam a cidadania grega. Não estando ligada de maneira alguma à seara pública, à mulher apenas estava permitida a esfera do privado. E a essa condição deveria permanecer.

Dentro desse cenário, nada ligava a mulher à política ou à qualquer resquício de cidadania. De acordo com Ana Lúcia Curado (2008, p. 284), “a cultura grega tinha o silêncio como uma das principais qualidades da mulher, ao lado da beleza, da castidade, do pudor e da submissão”. O silêncio da palavra e o silêncio dado pelo afastamento da ação política, portanto, definiam em traços claros e cruéis o retrato da mulher nesta época clássica.

No entanto, se é um fato que a sociedade grega é considerada muitas vezes uma sociedade machista, por neutralizar a presença da mulher e a afastar em tudo do exercício da sua cidadania, não tendo por isso quaisquer direitos cívicos, também é verdade que o legado filosófico de que hoje dispomos, nos permite observar que a misoginia – características de clássicos gregos como Aristóteles, Eurípedes e Aristófanes – foi também combatida por uma visão mais favorável e justa à mulher, tal qual a de Górgias, trazida aqui no presente trabalho.

Hoje, ao estarmos na posição de observadores e também de atores da história, cabe-nos entender a importância desse caminho de leve conscientização acerca do papel fundamental da mulher dentro de uma sociedade e percebermos que visões misóginas e preconceituosas, apesar de fazerem parte do que fomos e ainda somos, não deverão compor aquilo que queremos ser.

Esperamos que após a leitura do presente trabalho tenhamos conseguido levar os leitores a pensar um pouco como Górgias. Que possamos tirar a venda dos olhos, enxergarmos e combatermos aqueles que ainda propagam discursos reacionários e promovedores de situações vexatórias pelas quais as mulheres passam diariamente. Que quebremos os elos dessas correntes ultrapassadas que nos prendem a visões machistas e cada vez mais a população entenda o quão difícil é ser mulher, o quão difícil é e sempre foi, lutar contra a misoginia e o sistema patriarcal.

BIBLIOGRAFIA

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DINUCCI, Aldo. Górgias de Leontinos. São Paulo, Oficina do Livro, 2017.

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PLATÃO. Górgias. Tradução, ensaio introdutório e notas Daniel R. N. Lopes. São Paulo: Perspectiva, 2020.

_______. Mênon. Tradução Maura Iglesias. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

RESENDE, Marcus. A retórica política do cosmo social. Aracaju: Infographics, 2019.

ROMILLY, Jacqueline de. Os grandes sofistas da Atenas de Péricles. Tradução de Osório Silva Barbosa Sobrinho. São Paulo: Octavo, 2017.

UNTERSTEINER, Mario. A obra dos sofistas: uma interpretação filosófica. Tradução de Renato Ambrósio. São Paulo: Paulus, 2012.

Foto de Zack Jarosz no Pexels

Aldo Dinucci

Doutor em filosofia pela PUC/RJ, professor adjunto de filosofia da Universidade Federal de Sergipe e tradutor de obras estoicas como o Enchiridion e as Diatribes de Epicteto.

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