A compaixão em tempos de pandemia

Eco e Narciso. (Imagem: John William Waterhouse, 1903)

Em tempos de crise, em tempos de qualquer tipo de crise social ou individual e, agora, mais especificamente, em tempos de crise gerada por uma pandemia, a melhor atitude seria a da compaixão? E se for, quais efeitos a compaixão por si e pelo outro, seja este outro familiar, próximo a nós, seja o outro anônimo que se encontra em tantos lugares e corpos, poderia causar? O objetivo dessa reflexão é lançar um olhar à luz de Foucault e Nietzsche para o gesto de compaixão presente nas relações humanas quando se instaura uma situação de caos, ameaçando a vida, ou as vidas dos sujeitos que compõem determinado momento crítico e delicado da história, exigindo de todos os envolvidos, direta ou indiretamente, apenas pelo fato de tomar consciência de determinada situação, um posicionamento diante de si e do outro, seja de comprometimento autêntico que reverbera em atitudes concretas frente à dor do outro, ou o comprometimento vazio de ação, seja uma posição de indiferença ou mesmo de um comprometimento narcisista.

Nesse viés, proponho uma breve reflexão sobre a compaixão nesses tempos difíceis que vivemos, não tanto tomando-a como uma possibilidade de salvação, controle do caos ou o fim de determinada crise, mas sugerindo um olhar questionador sobre as transformações sociais e pessoais que, tanto a compaixão como a crise, num movimento de mão dupla, podem vir a provocar, indo muito além dos espaços geográficos e das posições sociais que os corpos dos sujeitos ocupam na sociedade. Pois bem, diante do sofrimento causado por alguma catástrofe natural, por alguma ação negativa do homem sobre sua própria vida ou sobre a vida do outro, como algum tipo de violência física ou emocional, geralmente, diante de um cenário caótico estabelecido, é possível encontrar quatro tipos de comprometimento do sujeito:

  1. Começo apontando aquelas e aqueles que simplesmente se posicionam alheios à dor do outro, incapazes de sentir empatia pelo sofrimento que supostamente não lhes pertencem, ignoram completamente a gravidade da situação, seja por fuga, seja mesmo como um mecanismo de defesa, e, indiferentes seguem suas vidas, se, óbvio, não forem afetados diretamente pelo problema em questão. De toda forma, indiretamente, todos são afetados, uns em grau maior ou menor, mas penso que não seria possível se ausentar completamente de algum tipo de situação problemática que emerge nas comunidades humanas em suas diversas camadas sociais. Este não seria o caso nem se esta situação estivesse geográfica ou socialmente distante, pois o outro sempre nos afeta de algum modo, ainda mais em tempos globalizados e sob os holofotes minuciosos da mídia virtual que se disseminam pelas redes sociais, nas quais os conteúdos informativos se espalham numa velocidade nunca vista em outros tempos, num jogo de “vale tudo”. Verdade ou mentira, fake ou fato;
  2. Temos também aquele grupo de pessoas que se compadecem, fazem discursos rebuscados e intermináveis nas plataformas digitais em apoio aos vitimados, passam até a impressão de que se colocam no lugar do outro, mas são incapazes de partir para uma ação mais concreta, dando a impressão de estarem impotentes diante do cenário de calamidade. O máximo que são capazes de fazer são discursos vazios e teorias sem ação, beirando a hipocrisia;
  3. Há, ainda, os que fazem do caos, da dor do outro, do sofrimento coletivo, um trampolim de ascensão social e política. Dissimulam a compaixão em gestos caridosos para se autopromoverem diante do olhar do outro e serem admirados como ‘cidadão de bem’, ou mesmo para, simplesmente, se sentirem bem consigo mesmos ou com um deus que dizem acreditar, como numa espécie de moeda de troca para não serem condenados ao inferno ou merecerem algum tipo de recompensa ainda em vida. A exemplo disso, presenciamos corriqueiramente nas redes sociais, mas com mais frequência nesses últimos tempos, variadas manifestações de pessoas que se fotografam doando cestas básicas ou fazendo qualquer outro tipo de “caridade”;
  4. Por fim, existem, ainda, será que realmente existem? aqueles que de fato se colocam no lugar do outro, sofrem com o outro, tomam a dor do outro para si, e não conseguem ficar indiferentes ou apenas na teoria de uma suposta caridade que nunca é colocada em prática; aqueles que assumem a vida dolorida do outro para si e buscam soluções para o problema eminente, visando única e exclusivamente a libertação do outro que sofre, o alívio urgente do sofrimento que diretamente não lhes pertencem, mas têm plena consciência de seus respectivos comprometimentos para com o outro. E, o mais incrível, sem querer, absolutamente nada em troca, nem reconhecimento, nem gratidão, simplesmente exercem o gesto de compaixão pelo gesto em si, tendo como único objetivo o bem estar daqueles e daquelas que se encontram em situação de risco e sofrimento. Ora, o questionamento que fica aqui é bem direto: nos dias atuais, será possível esse tipo de ação compassiva? Essas práticas compassivas realmente existem para além dos interesses pessoais de quem as pratica, em dissonância com a indiferença em não enxergar a dor alheia como suas e com a ausência de empatia de se colocar no lugar daquele que está sofrendo por algum motivo? Ou ainda, seriam capazes de assumirem gestos de compaixão sem interesses pessoais à sombra de uma hipocrisia generalizada?

Se assim o for, se de fato essas pessoas existem, espalhadas por esses grupos sociais, no exercício do olhar para o outro, elas exercem práticas de cuidado que vão além de si, despontando no cuidado do outro e com o outro, seja pela própria indiferença do olhar, pelo olhar compassivo mas vazio de prática, seja pelo gesto puro de compaixão ou a compaixão dissimulada que visa apenas os próprios interesses. Esse olhar para o outro nunca deixa de ser desafiador, pois sempre nos exige algum posicionamento, alguma postura, algum tipo de escolha, mesmo que seja a escolha de deixar sofrer, de deixar morrer. Afinal, em tempos obscuros como o que vivemos atualmente, nos quais a cegueira talvez fosse a melhor situação, pelo menos fingir cegueira diante da dor do outro nos traria em vão algum alívio de ópio, porque até podemos ignorar uma situação, mas deixar de olhá-la seria quase impossível. E esse deixar de olhar para o outro é ocupar-se em demasia com as próprias necessidades, quase que como um gesto narcisista e desesperado na urgência de ser e estar.

Mediante à rápida exposição apresentada, volto, agora, a atenção para Foucault e Nietzsche, buscando apoio teórico para pensar em um possível diagnóstico do presente. Num primeiro momento, quero tomar Foucault para pensar a compaixão na esteira dessa relação do sujeito consigo e com o outro, especificamente, em seu trabalho O governo de si e dos outros – A coragem da verdade, na aula do dia 21 de março de 1984, ao fazer um retorno aos gregos e à filosofia helenística, quando nos dirá que “Na filosofia antiga a vida soberana é em geral uma vida que tende à instauração de uma relação consigo”. Ele não nos deixa esquecer, contudo, que, tanto para os gregos como para os helenísticos, o olhar para o outro e do outro é primordial na constituição de si, pois a vida voltada a si mesmo, autêntica e movida pela sabedoria, nos remete a uma relação com o outro.

Ele vai salientar que “o outro aspecto igualmente importante no tema geral da vida soberana na antiguidade, é que a partir do momento em que e pelo próprio fato de que ela é relação consigo mesmo, a vida soberana também funda, ou se abre para, uma relação com o outro.”  Portanto, perceber o outro, sentir o outro, se voltar para o outro num gesto de cordialidade, de atenção, de cuidado, faz parte do movimento de ser soberano de si e, em vias de regra, estar para o outro, atento às suas necessidades enquanto sujeito que traz em si as necessidades básicas presentes em nós como também em todas as esferas da existência.

Num segundo momento da minha reflexão, quase que como um contraponto, se é que podemos ver por este prisma, Nietzsche, ao longo de suas reflexões sobre as relações humanas, sugere a compaixão, como um gesto egoísta do sujeito, que visa tão somente o próprio gozo, a partir de uma postura mais que soberana de si, culminando na prepotência e na arrogância em relação ao outro, dissimulando a própria impotência diante de sua condição humana e inacabada. O filósofo alemão, por sua vez, minimiza a relevância do que poderíamos denominar de responsabilidade do homem diante de si mesmo e do outro, ou seja, diante das fatalidades da vida. Conforme seu pensamento, o homem se vê despertado a tomar posse de si mesmo e de tudo que lhe diz respeito, mas sem a sombra da autopiedade, assumindo a posição de Übermensch, entendido, aqui, como um olhar para si à luz do niilismo, tomando a vida, de modo geral, como uma constante atitude de renovação e descoberta. Ou seja, diante das fatalidades da vida, o homem deve aprender a se reinventar sem sentir pena de si mesmo ou do outro, num falso moralismo piedoso, numa compaixão vazia de sentido e cheia de hipocrisia.

Sem mais me delongar, compartilho minhas inquietudes e questões nesses últimos tempos de crise, atípica, pois, até então, não havíamos vivido, pelo menos minha geração, um período longo de quarentena, causada por uma pandemia de um vírus letal. Afinal, a princípio, o que queremos é não perder o controle da situação, é não se perder no descontrole alheio e próprio. A princípio, vamos na direção de um monitoramento que desemboca na limitação da liberdade, de uma suposta liberdade que julgamos ter, que nos permite ir e vir, que nos permite frequentar lugares que selecionamos, que nos permite ser um cidadão tipicamente possuidor de todos os seus direitos. Em contrapartida, diante de um passo dado, inusitado, que nos empurra pra uma realidade impensável e que só conhecíamos em filmes apocalípticos, percebemos que nossa existência não passa de uma frágil ilusão, que nosso lugar em nós mesmos, no mundo, seja social seja natural, não passa de um lugar efêmero, e que o fato de estarmos presentes, não significa muita coisa além de simplesmente estarmos superficialmente e passageiramente.

Será, então, que existir ultrapassa nossa simplória capacidade de ter a consciência de que existimos? Será mesmo que, em tempos de pandemia, o melhor caminho é o da compaixão, o melhor lugar é o da compaixão, o melhor gesto é o da compaixão, supostamente tão onipresente quanto o vírus, tão poderosa quanto o vírus e tão imortal quanto o vírus? Se assim realmente o for, talvez possamos pensar em despertar a compaixão autêntica em nós mesmos nesses tempos difíceis e talvez a existência se torne mais leve em tempos que a leveza pesa tanto quanto um vírus e, assim, nos tornemos mais soberanos de si e menos arrogantes e prepotentes.

Vilmar Prata

Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe e está em intercâmbio no Programa de Filosofia na USP em São Paulo. Mestre em Memória pela UESB, fez sanduíche no Programa de Psicologia da USP de Ribeirao Preto e na Sorbonne Nouvelle em Paris. É autor e organizador do livro Filosofias do Suicídio.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Previous Story

Greta Thunberg e a ação comunitária epictetiana

Next Story

Sobre o Estoicismo, seu estudo e escolas filosóficas

Latest from Blog

withemes on instagram